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Educação olfativa

Esfregar os pulsos estraga o perfume? A verdade por trás de um ritual quase proibido

Esfregar os pulsos estraga o perfume? Entenda de onde vem a recomendação de deixar a fragrância secar naturalmente e o que as pesquisas permitem afirmar.

Homem negro borrifa perfume no antebraço e deixa a pele secar sem esfregar

Existe uma espécie de código de conduta não escrito entre os apaixonados por perfumes. Algumas regras são bastante razoáveis. Outras ganharam tanta autoridade com o tempo que quase ninguém se lembra de perguntar por quê.

Esfregar os pulsos depois de uma borrifada está entre elas.

É um gesto antigo, intuitivo e quase automático. Você aplica o perfume, encosta um pulso no outro e espalha o líquido. Até que alguém observa a cena com a indignação de quem acabou de presenciar um pequeno crime contra a perfumaria.

“Não esfrega! Você vai estragar o perfume.”

A bronca é conhecida. A explicação, nem sempre.

O que dizem os perfumistas

Francis Kurkdjian tem credenciais de sobra para participar dessa conversa. Criou o Le Male, de Jean Paul Gaultier, em 1995, e também o Baccarat Rouge 540, uma das fragrâncias mais reconhecidas da perfumaria contemporânea.

E ele não recomenda esfregar os pulsos.

Em entrevista à British Vogue, Kurkdjian explicou que o atrito aquece a pele e pode interferir no desenvolvimento do cheiro. Um perfume floral, por exemplo, poderia perder parte do frescor com esse aquecimento.

É uma recomendação que faz sentido para quem quer perceber a fragrância desde os primeiros instantes: borrifar, deixar secar e acompanhar o que acontece.

Mas há uma distância considerável entre essa orientação e a ideia de que dois pulsos esfregados são capazes de arruinar um perfume.

O que realmente acontece com a fragrância?

Perfume não é uma fotografia. É uma composição que muda enquanto está na pele.

Aquelas primeiras impressões, muitas vezes mais frescas e voláteis, não permanecem exatamente iguais ao longo das horas. Outros aspectos da fragrância vão ganhando espaço. Às vezes, um perfume que parecia luminoso na saída revela depois uma faceta mais quente, amadeirada ou adocicada.

Essa transformação faz parte da experiência.

Um estudo publicado no International Journal of Cosmetic Science investigou como as características das moléculas e da pele influenciam a evaporação de fragrâncias. É uma contribuição importante para compreender esse comportamento, mas não um experimento sobre esfregar os pulsos.

Por isso, afirmar que o atrito reduz a fixação em duas, três ou quatro horas seria ir além do que essa pesquisa permite concluir.

A recomendação de Kurkdjian diz respeito ao desenvolvimento do cheiro. A história de que esfregar os pulsos simplesmente destrói a fragrância é uma versão muito mais dramática.

Aplicação de perfume no antebraço com a pele deixada em repouso
Deixar secar permite acompanhar o cheiro sem acrescentar o atrito à aplicação. Imagem editorial: Homem Perfumado.

E a pele, entra nessa história?

Entra. E talvez seja a parte menos lembrada dessa discussão.

A dermatologista Ingrid Campos, ouvida pelo iG em reportagem sobre o tema, observa que o atrito vigoroso pode favorecer irritações, especialmente em peles sensíveis.

Não é motivo para tratar qualquer contato entre os pulsos como um perigo. Mas também não existe grande razão para esfregar insistentemente uma região que acabou de receber perfume.

Se houver ardência, coceira ou vermelhidão, vale interromper o uso naquela área e procurar orientação médica se a reação persistir.

O melhor argumento para deixar os pulsos em paz

Quem gosta de perfume sabe como uma borrifada pode render uma experiência diferente a cada momento. O frescor que aparece primeiro, uma faceta que surge depois, aquele detalhe que só percebemos quando voltamos a sentir a fragrância.

É justamente por isso que vale experimentar deixar o perfume secar naturalmente. Não custa nada, não exige nenhuma técnica especial e permite acompanhar o cheiro desde os primeiros instantes, sem acrescentar o atrito à aplicação.

E não é apenas Francis Kurkdjian quem recomenda esse cuidado.

Junior Barreiros, uma das principais referências brasileiras em conteúdo sobre perfumes e responsável pelo terceiro maior canal de perfumaria do mundo, também orienta a não esfregar a região depois de borrifar. No vídeo abaixo, ele demonstra esse e outros cuidados com o uso e a conservação das fragrâncias.

No fim das contas, não precisamos tratar uma esfregadinha como um desastre. Mas, quando nomes como Francis Kurkdjian e Junior Barreiros recomendam deixar o perfume secar naturalmente, há bons motivos para prestar atenção.

Nós, por aqui, preferimos seguir o conselho. Afinal, se a ideia é aproveitar cada detalhe de uma fragrância, por que não começar pela maneira de aplicá-la?

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